3 livros para quem se perdeu no meio do caminho

 

3 livros para quem se perdeu no meio do caminho

 

Às vezes a vida nos puxa para uma direção inesperada. A sensação é que a gente se perdeu do caminho previamente traçado, do tão sonhado pote de ouro no fim do arco-íris. E os planos devem ser revistos. Mas se perder no meio do caminho não é tão ruim como se imagina. Você tem a chance de reconstruir sua vida, mudar de rumo, mudar a forma de pensar. Eu também tive que rever alguns conceitos e padrões de pensamento para escolher um novo caminho.

Para me guiar nesta mudança interna, alguns livros foram fundamentais. Abri os olhos para algumas características minhas que eu ignorava, e também defeitos. Esses livros apontaram saídas e um jeito mais leve de olhar a vida. Claro que é uma seleção muito pessoal, mas acho que sempre vale a pena ver a vida sob um novo ângulo.

O poder dos quietos – Susan Cain

Em um mundo que valoriza cada vez mais a extroversão, ser um introvertido pode ser um fardo. Mas Susan Cain nos alivia desse peso com pesquisas científicas e entrevistas com psicólogos que mostram as vantagens de ser introvertido, e como podemos usar essa característica a nosso favor.

A autora aponta que a grande crise financeira de 2008 nos Estados Unidos aconteceu por que muitas vezes as opiniões dos analistas mais introvertidos não eram levadas em conta. As atitudes mais agressivas dos extrovertidos eram mais valorizadas em Wall Street, o que levava a escolhas e decisões altamente arriscadas. Quem era mais cauteloso era ignorado. O que resultou numa enorme crise financeira.

Eu sempre achei que tinha que ser mais extrovertida, que tinha que sair mais, falar mais. Mas depois de ler este livro, percebi que ser introvertido não é nenhuma doença, apenas um traço de personalidade. Introvertidos sempre precisam de um tempo a mais sozinhos depois de irem a uma festa ou após longos períodos de interação social.

Os introvertidos também são mais criativos, pois a solidão é fundamental para o desenvolvimento de novas ideias. Muitos pensadores importantes foram introvertidos, como Charles Darwin e Marie Curie.

Título: O poder dos quietos
Autora: Susan Cain
Editora: Agir

Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Pinkola Estés

Clarissa Pinkola Estés é uma psicóloga junguiana que nasceu nos Estados Unidos, mas é de origem latina. Foi criada por uma família de refugiados do Leste Europeu que tinham o hábito da contação de histórias.

Estés reuniu a sua paixão por contos e lendas com a psicanálise junguiana. Em Mulheres que correm com os lobos, a escritora tenta resgatar o arquétipo da “mulher selvagem”, que ajudaria a mulher moderna a lidar com as pressões e a resgatar “os processos da psique instintiva natural”. Ao longo dos séculos, a natureza instintiva da mulher foi reprimida e domesticada.

Os contos reunidos por Estés falam sobre diversos aspectos da personalidade e da vida das mulheres, como o relacionamento amoroso, resgate da intuição, amadurecimento da personalidade. Clarissa Pinkola Estés reuniu contos de diversas origens (russa, europeia, esquimó).

Cada conto é uma ponte para a autora abordar aspectos da personalidade feminina. O conto “Vasalisa, a sabida” aborda a importância da intuição; o conto “Barba azul” alerta sobre os perigos do predador interno e externo, que impedem a mulher de ter uma vida criativa. O “predador” também aparece quando a mulher vive uma vida certinha, abafando seus instintos para ter uma condição mais confortável e se adaptar à sociedade.

Nas palavras da autora:

“Quando a mulher renuncia aos seus instintos que lhe indicam a hora certa para dizer sim ou não, quando ela renuncia ao seu insight, sua intuição e outros traços de natureza selvagem, ela se encontra, então, em situações que prometem ouro mas que acabam gerando dor. Algumas mulheres desistem da sua arte em troca de um grotesco casamento por interesse, abandonam o sonho de uma vida para ser uma boa esposa, boa filha ou boa menina, ou renunciam à sua verdadeira vocação a fim de levar o que elas esperam que venha a ser uma vida, mais aceitável, mais plena e mais digna.”

Título: Mulheres que correm com os lobos 
Autora: Clarissa Pinkola Estés
Editora: Rocco

Nada de especial – vivendo Zen — Charlotte Joko Beck

Charlotte Joko Beck (1917-2011) foi uma mestre zen budista nascida nos Estados Unidos. Beck compara nossas vidas a rodamoinhos em um rio. No percurso de um rio, surgem os rodamoinhos, formações temporárias causadas por galhos, pedras, irregularidades no leito. Nós somos como rodamoinhos no rio da vida, formações meramente temporárias. Se entulharmos nosso rodamoinho com coisas inúteis, pensamentos, mágoas, a água não fluirá, a vida seguirá estagnada.

“O melhor que podemos fazer por nós e pela vida é manter a água de nosso rodamoinho fluindo e limpa para que apenas continue seu curso. Quando fica represada, criamos problemas mentais, físicos e espirituais.”

Enquanto nos enrolamos com problemas cotidianos e desejos frustrados, perdemos a conexão com o momento presente. Estamos sempre preocupados em lutar, sem deixar que o fluxo da vida corra e leve embora tudo o que está estagnado, para que algo novo possa surgir.

Título: Nada de Especial – Vivendo Zen
Autora: Charlotte Joko Beck
Editora: Saraiva

Como a leitura pode ajudar a escrever melhor?

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Todos estão cansados de ouvir que ler muito (livros, revistas, artigos, etc) é importante para escrever melhor. Acho que aqui cabe uma analogia com o aprendizado de uma língua estrangeira: temos que ler muitos textos no idioma que queremos aprender para entender o significado das palavras e a construção das frases.

Mas um bom texto não é só feito de gramática e ortografia. Tem que ter conteúdo. E é por meio da leitura que aumentamos nossa bagagem para criarmos textos com conteúdo valioso.

Ter o hábito de ler ficção, biografias, notícias, etc, aumenta o nosso repertório de conhecimento, o que nos ajuda a elaborar raciocínios e textos com mais desenvoltura. Conhecemos novos pontos de vista e realidades diferentes das que vivenciamos.

Como aconselha o escritor americano Ray Bradburry, por mil noites, leia um conto, um poema e uma matéria sobre diversas áreas do conhecimento, como biologia, direito, história. O cérebro irá usar essas informações para criar novas ideias. Isso porque as informações armazenadas no cérebro podem ser recombinadas mais tarde para encontrar a solução de um problema, gerar uma nova ideia ou produto.

E essas combinações inusitadas podem surgir na hora de escrever (dá para saber mais nesta resenha feita pela Ligia Fascioni). A dica de Bradburry é mais voltada para escritores, mas é útil para todas as profissões. Mil noites é um exagero, mas duas noites por semana já podem fazer milagres.

Ok, e o que eu leio agora?

O passo mais importante é ler por prazer . E aqui vale tudo: quadrinhos, blogues, sites de notícias e entretenimento, textão de Facebook, revistas, romances, ficção científica. O importante é ler.

Se você ainda não encontrou sua praia, a internet pode ajudar a encontrar boas dicas de livros. Há redes sociais voltadas para livros, como Skoob e Good Reads. As próprias editoras mantém blogs e sites interessantes, como a Companhia das Letras e Intrínseca. O Instagram também é uma boa fonte de dicas, com muitos perfis dedicados aos livros.

Porém, um bom leitor gosta de novidades e de se sentir desafiado. Para alimentar o cérebro com novas informações, é bom sair da bolha de nossos próprios gostos e procurar novas leituras estimulantes. Você pode ler clássicos da literatura ou buscar novas áreas do conhecimento, como filosofia, psicologia. Também vale a pena buscar novos formatos, como os quadrinhos. O importante é diversificar. E ler!

Um poema de Camões

Luís Vaz de Camões Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde,  Vem não sei como, e dói não sei porquê

 

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirara o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

*Soneto publicado do livro  Sonetos para amar o amor, com poesias de Luís Vaz de Camões, selecionadas pelo escritor Sergio Faraco.

Título: Sonetos para amar o amor
Autor: Luís Vaz de Camões – seleção, organização e notas de Sergio Faraco.
Editora: L&PM
Ano: 2010

Quando ler é doloroso

Há livros com assuntos tão dolorosos que tornam a leitura difícil, pesada, lenta.

Acontecimentos históricos como a Ditadura Militar no Brasil, a Escravidão ou o Holocausto são temas de livros de história, documentários e reportagens. Mas apenas a literatura é capaz de transmitir as nuances dos acontecimentos e a repercussão dessas tragédias na vida de uma pessoa comum.

Um desses livros perturbadores é a graphic novel “Maus”, do ilustrador e cartunista Art Spiegelman. O livro é baseado nos relatos de seu pai Vladek Spiegelman, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. A grande inovação de “Maus” (ratos, em alemão) é narrar os acontecimentos do Holocausto com a linguagem dos quadrinhos. Os desenhos são todos em preto e branco, e os judeus são retratados como ratos, e os alemães, como gatos.

quando ler é doloroso

O ilustrador Art Spiegelman ganhou o Prêmio Pulitzer com o relato de seu pai sobre o Holocausto

Spiegelman não esconde as características menos nobres do pai, como a sovinice e a relação um tanto fria entre os dois. É difícil ler os trechos sobre o cotidiano dos campos de concentração e as consequências desta experiência para Vladek e Anja. Mas é impossível não se emocionar com a história de Vladek, sua luta pela sobrevivência e o amor que sentia pela esposa Anja.

 

Tudo o que tenho levo comigo

“Tudo o que tenho levo comigo” é um livro que não consegui terminar de ler até hoje. Escrito pela ganhadora do Nobel de Literatura Herta Müller, o livro é um relato do personagem Leo Auberg, que com apenas 17 anos é deportado para um campo de trabalhos forçados na Ucrânia, onde vive por cinco anos. A escritora teve como inspiração um fato pessoal para escrever este livro: sua própria mãe também foi enviada a um campo de trabalhos forçados na União Soviética.

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o general soviético Vinogradov solicitou ao governo da Romênia que os alemães que morassem no país deveriam contribuir para a reconstrução da União Soviética. Até a invasão pelo Exército Vermelho, a Romênia apoiava a Alemanha nazista durante a guerra. Assim, alemães entre 17 e 45 anos foram enviados a campos de trabalhos forçados soviéticos.

quando ler é doloroso

Herta Müller baseou sua obra no relato de sobreviventes de campos de trabalho forçados soviéticos

 

A mãe de Herta Müller passou cinco anos num campo de trabalhos forçados, mas pouco falou sobre o tema com a filha. O tema “deportação” era um tabu devido ao passado nazista da Romênia. Só se falava sobre os campos de maneira velada. Em 2001, Müller começou a colher relatos de sobreviventes, entre eles Oskar Pastior, que se tornou sua principal fonte sobre os campos. Eles pretendiam escrever um livro juntos, porém Pastior morreu em 2006.

Herta Müller reconstitui com sensibilidade os pequenos detalhes do cotidiano do campo. As pás de coração para o carregamento de carvão. A beleza incomum de um lenço branco bordado à mão, tão deslocado na realidade fria do campo.

Segue um trecho do livro:

Sobre o anjo da fome

A fome está sempre ali.

Como está ali, ela vem quando e como quer.

O princípio de causalidade é o trabalho ignóbil do Anjo da Fome.

Quando ele chega, ele chega com força.

É claríssimo:

1 movimento completo com a pá = 1 grama de pão.

Título: Tudo o que tenho levo comigo
Autora: Herta Müller
Tradução: Carola Saavedra
Editora: Companhia da Letras

Título: Maus
Autor: Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Editora: Companhia da Letras

Ricardo Reis e a passagem do tempo

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu em 1887, é médico e vive no Brasil. Estudou num colégio de jesuítas e faz uma poesia clássica, pagã, preocupada com a passagem do tempo.

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

heterônimos Fernando Pessoa ricardo reis

 

QUER POUCO: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos.
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

A onda das garotas na literatura

“A garota no trem”

“Garota exemplar”

“A garota do calendário”

Quantos livros com garota no título você consegue se lembrar?

Os livros com “garotas” se tornaram bastante populares nos últimos anos. Mas o que está por trás desses títulos? Pura estratégia de marketing?

a onda das garotas na literatura

 

A escritora canadense Emily St. John Mandel (que escreveu o ótimo “Estação Onze” – resenha aqui) fez uma análise  baseada nos dados da rede social Goodreads sobre o fenômeno, além de conversar com pessoas que trabalham no mercado editorial. A análise da escritora foi publicada na revista americana FiveThirtyEight em outubro de 2016.

Febre Millenium

De acordo com as fontes ouvidas por Mandel, a onda dos livros com “garota” na capa talvez tenha começado com a série Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson. Em inglês, os livros de Larsson ganharam títulos  com a palavra girl “The Girl With the Dragon Tattoo”, “The Girl Who Played With Fire”, “The Girl Who Kicked the Hornet’s Nest”. Em português do Brasil o girl é substituído muitas vezes por “menina” – (A menina que brincava com fogo).

Um dos achados de Mandel é que na maioria das vezes a garota do livro já é uma mulher. Muitas vezes não é decisão do escritor o título final da obra, portanto os editores escolhem o título que terá mais chances de atrair a atenção do público. E para isso, nada melhor do que entrar na onda das garotas.

a onda das garotas na literatura

Até o Mia Couto entrou na onda

Dos 810 mais populares livros com garota na capa, 79% são mulheres. Outro achado interessante da escritora é que a probabilidade da garota morrer na trama é maior se o escritor for homem. Na verdade, a porcentagem é de 17% para livros de escritores e de 5% de garotas mortas durante a trama para escritoras mulheres. Como Mandel mesmo sublinha, isso não significa que personagens mulheres têm mais chance de serem mortas se o autor for homem, mas apenas se no título houver a palavra “garota”. As mulheres também tendem a escolher mais protagonistas femininas, e seria uma escolha muito incomum matar a personagem principal.

Talvez os editores tenham razão.”A garota no trem”, de Paula Hawkins, e “A história da menina perdida”, Elena Ferrante, estão entre os mais vendidos na categoria ficção no Brasil.

“Estação onze” – um livro sobre memórias afetivas e o poder da arte

estação onze livro emily st. john mandel

Conheci por acaso o livro “Estação onze“, da escritora canadense Emily St. John Mandel. E que livro! Minha tia comprou numa promoção nas lojas Americanas e minha mãe pegou emprestado. A obra foi publicada em 2014 nos Estados Unidos e teve uma boa repercussão entre os críticos (tem até elogio da New Yorker na contracapa).

Em “Estação onze“, depois de uma pandemia de gripe, a civilização se desintegra, e o que resta são pequenos povoados estabelecidos pelos sobreviventes. Não há mais governos, polícia, fronteiras. Nem remédios, internet e celulares. No ano 20 após a tragédia, a companhia teatral Sinfonia Itinerante percorre esses pequenos povoados entre o Canadá e os Estados Unidos, apresentando peças de Shakespeare e concertos de música clássica.

A autora Emily St. John Mandel entrelaça a história da atriz da Sinfonia Kirsten Raymonde com a do famoso ator hollywoodiano Arthur Leander. Kirsten tinha apenas oito anos quando seus pais morreram na epidemia de gripe. No dia em que a epidemia se alastrou, Kirsten estava no palco representando uma das filhas de Rei Lear, em uma montagem estrelada por Arthur. O ator morreu no palco nesta mesma noite.

Estação Onze emily st. john mandel

No mundo pós-apocalíptico de “Estação Onze” não há cafeterias, nem máquinas de café expresso

O único elo que Kirsten tem com o passado são as misteriosas revistas em quadrinhos do “Dr. Onze”, um presente de Arthur. Enquanto viaja com a Sinfonia Itinerante representando e sobrevivendo, ela tenta reconstruir este passado com revistas de celebridades cheias de fofocas sobre o ator.

Estação Onze – uma ficção científica diferente

As revistas em quadrinhos do “Dr. Onze” foram escritas pela primeira mulher de Arthur, Miranda, e nunca foram publicadas antes da epidemia. Miranda desenhava as revistas com perfeccionismo: elas nunca estavam prontas o suficiente para serem publicadas. A desenhista nunca teve fama ou reconhecimento profissional pela sua arte. Mas agora elas são lidas e fazem a diferença na vida de outras pessoas, mesmo que a artista não veja o resultado final. O que resta é a obra.

Em “Estação Onze“, Emily St. John Mandel  reflete sobre a importância da arte em momentos difíceis e quando tudo parece desmoronar. A autora não reflete sobre as causas da pandemia de gripe, ou se uma cura será descoberta. O que importa são as relações pessoais e familiares e como a arte é tudo o que resta quando todas as tecnologias falham.

“Não havia mais mergulhos em piscinas de água clorada com luzes verdes por baixo. Não havia mais jogos de bola sob holofotes. Não havia mais luzes nas varandas circundadas por mariposas nas noites de verão. Não havia mais trens correndo sob as cidades com a força alucinante do terceiro trilho condutor de eletricidade. Não havia mais cidades. Não havia mais filmes, exceto raramente, exceto quando um gerador de energia estava ligado e abafava metade do diálogo, e mesmo isso só por algum tempo, até que o combustível para os geradores acabou, porque a gasolina dos automóveis estragou depois de dois ou três anos. O combustível dos aviões durava mais tempo, porém era difícil conseguir.”

Curiosidades: no livro, as pessoas não usam carros, aviões, etc., para se deslocarem. Parece que a gasolina estraga após um tempo. Como vou assistir The Walking Dead após essa informação?

Quarto livro da série napolitana é publicado no Brasil

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O último livro da série napolitana, da misteriosa escritora Elena Ferrante, estará disponível nas livrarias amanhã, dia 27. “História da menina perdida” é o último capítulo da história de Lenu e Lina, duas amigas que sobreviveram a uma infância difícil em Nápoles e que agora devem superar os desafios da vida adulta e da condição feminina.

História da menina perdida” é a continuação do penúltimo livro  da série, “História de quem foge e de quem fica” (resenha aqui).  No final do terceiro livro, o casamento de Lenu está por um fio, e Lina parece ter se acomodado no antigo bairro da infância e no novo emprego como programadora. O quarto livro aborda a transição de Lenu e Lina da vida adulta para a velhice

Estou ansiosa para saber como a história termina. Como Lenu resolverá o conflito amoroso entre Nino e Pietro? E Lina, vai continuar se resignando aos problemas do bairro? Mais 480 páginas que serão devoradas rapidamente!

História da menina perdida – Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Páginas: 480
Data de lançamento: 27/04/2017
Preço: R$ 49,90
Editora: Biblioteca Azul – Globo Livros

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

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Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

Poesias de Bilac e Camões na música pop

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Para curtir o feriado, selecionei alguns poemas que serviram de inspiração para bandas de rock/pop. Ouvir os poemas entre as notas musicais é uma forma diferente de sentir, ouvir e ler poesia.

Amor é um fogo que arde sem se ver

Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana, usou trechos da carta de Paulo aos Coríntios, do Novo Testamento, e de um poema do poeta português Luís Vaz de Camões para compor a letra de “Monte Castelo“. A música é uma homenagem aos soldados brasileiro que lutaram na Segunda Guerra na batalha de Monte Castello, na Itália. A canção faz parte do álbum “Quatro estações”, de 1989.

 

 

Monte Castelo – Legião Urbana

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

Em 1998, a cantora Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, adaptou o poema Ouvir Estrelas, do poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918). A música faz parte do disco “Autolove”.

 

 

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? ”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas”.