Quarto livro da série napolitana de Elena Ferrante é lançado no Brasil

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O último livro da série napolitana, da misteriosa escritora Elena Ferrante, estará disponível nas livrarias amanhã, dia 27. “História da menina perdida” é o último capítulo da história de Lenu e Lina, duas amigas que sobreviveram a uma infância difícil em Nápoles e que agora devem superar os desafios da vida adulta e da condição feminina.

História da menina perdida” é a continuação do penúltimo livro  da série, “História de quem foge e de quem fica” (resenha aqui).  No final do terceiro livro, o casamento de Lenu está por um fio, e Lina parece ter se acomodado no antigo bairro da infância e no novo emprego como programadora. O quarto livro aborda a transição de Lenu e Lina da vida adulta para a velhice

Estou ansiosa para saber como a história termina. Como Lenu resolverá o conflito amoroso entre Nino e Pietro? E Lina, vai continuar se resignando aos problemas do bairro? Mais 480 páginas que serão devoradas rapidamente!

História da menina perdida – Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Páginas: 480
Data de lançamento: 27/04/2017
Preço: R$ 49,90
Editora: Biblioteca Azul – Globo Livros

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

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Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

Poesias de Bilac e Camões na música pop

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Para curtir o feriado, selecionei alguns poemas que serviram de inspiração para bandas de rock/pop. Ouvir os poemas entre as notas musicais é uma forma diferente de sentir, ouvir e ler poesia.

Amor é um fogo que arde sem se ver

Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana, usou trechos da carta de Paulo aos Coríntios, do Novo Testamento, e de um poema do poeta português Luís Vaz de Camões para compor a letra de “Monte Castelo“. A música é uma homenagem aos soldados brasileiro que lutaram na Segunda Guerra na batalha de Monte Castello, na Itália. A canção faz parte do álbum “Quatro estações”, de 1989.

 

 

Monte Castelo – Legião Urbana

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

Em 1998, a cantora Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, adaptou o poema Ouvir Estrelas, do poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918). A música faz parte do disco “Autolove”.

 

 

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? ”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas”.

 

A busca pela leveza

Semana passada dei uma voltinha na Livraria Saraiva e me surpreendi com uma prateleira no meio da loja apenas com livros religiosos e sobre espiritualidade, inclusive com edições do Bhagavad Gita (livro religioso de origem indiana) e a Torá. Sinal dos tempos?

 

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Em entrevista para o jornal O Globo, o filósofo francês Gilles Lipovetsky  afirma que o crescente interesse por temas religiosos, pelo budismo e pela meditação é um sintoma de uma sociedade obcecada pela leveza. No livro “Da leveza: rumo a uma civilização sem peso”, Lipovetsky analisa como o atual estágio da sociedade capitalista nos leva a buscar na leveza um alívio para todas as angústias.

Meditação, alimentação saudável, queremos tudo o que possa deixar a nossa existência mais leve, acreditando que assim alcançaremos a felicidade. Mas seria essa felicidade possível?

 

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A crise da ecologia psíquica

Para o filósofo e economista Eduardo Giannetti, a revolução científica tecnológica do século XX parecia prometer à humanidade controle sobre o mundo externo e uma vida fácil e feliz. Mas essas ilusões morreram, e o que resta é um deserto de ideias, como explica o papa Francisco: “os desertos externos estão aumentando no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos”.

No artigo “A crise da ecologia psíquica“, Giannetti conclui que a renúncia a uma vida instintual em detrimento de um processo civilizatório racional gera um modo de vida hipócrita. A vida civilizada é um fardo. “O ideal de vida da leveza e da “civilização sem peso”, como propõe Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza interna ao ser humano”, escreve Giannetti.

Enquanto isso, continuamos com as aulas de pilates, yoga, alimentação sem glúten e lactose, meditação. O preço da leveza é caro.

Álvaro de Campos – heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Álvaro de Campos

O mais histericamente histérico dos personagens de Fernando Pessoa (segundo ele mesmo). Álvaro de Campos estudou engenharia naval na Escócia, é alto, algo entre branco e moreno e com cabelos lisos. Em carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa detalhou a criação dos heterônimos e das características de Álvaro de Campos:

“Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.”

 

 

 

poemas de álvaro de campos heterônimo de fernando pessoa

Lisbon Revisited

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Resenha: Objetos cortantes – Gillian Flynn

A escritora americana Gillian Flynn ganhou fama internacional com o livro Garota Exemplar, lido por milhões de pessoas e adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher. Porém, antes de criar a sombria Amy Dunne, Gillian Flynn estreou no mundo dos livros com o policial “Objetos Cortantes”, obra muito mais interessante do que “Garota Exemplar”.

Depois de um período em uma instituição psiquiátrica, a repórter Camille Preaker volta à pequena cidade onde passou a infância para investigar o desaparecimento de uma garota de 10 anos. Porém, o retorno ao trabalho e à cidade onde nasceu a fazem relembrar dos problemas da infância, da morte da irmã e do relacionamento turbulento com a mãe.

 

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A princípio relutante, a jornalista se envolve com o caso da garota desaparecida e permanece em Wind Gap na casa da mãe, Adora. O convívio familiar e com antigos colegas de escola disparam os gatilhos da memória de Camille. Foi durante a adolescência que ela começou a escrever palavras no próprio corpo. Usava facas, pinças, qualquer objeto cortante para se ferir.

As mulheres más de Gillian Flynn

A escritora Gillian Flynn tem um talento especial para criar personagens femininas controversas e sombrias. São mulheres que encontramos na vida real: com problemas psiquiátricos, mães tóxicas para os filhos, adolescentes sem caráter. Nada de heroínas ou mocinhas de novela.

Gillian Flynn vai traçando um panorama da pacata cidade do interior, sem crimes, aparentemente segura, mas cheia de segredos e pequenas maldades entre os habitantes. O machismo é tão naturalizado que crimes como estupro são considerados corriqueiros, inclusive pelas vítimas. O bullying e a competição entre os adolescentes são incentivados e vistos como algo normal. Há algo podre e todos fingem não ver

O livro tem um bom ritmo e personagens e tramas mais bem amarrados que o mega sucesso “Garota Exemplar”. O crime é solucionado, mas não há redenção para a protagonista. A perturbação causada pela leitura de  “Objetos cortantes” permanece com o leitor após o fim. Assim como outras obras da escritora, o livro será adaptado para a TV pela HBO, com a atriz Amy Adams no papel principal (leia a notícia aqui).

Eu sei, mas não devia – crônica de Marina Colasanti

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A escritora Marina Colasanti foi indicada esta semana ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil. Não li nenhum livro infantil da autora, mas um texto dela que me marcou muito foi a crônica “Eu sei, mas não devia“:

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”
“A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.”
O Antônio Abujamra gravou um vídeo recitando a crônica, vale a pena ver:
A escritora Marina Colasanti mantém um site com crônicas e textos.

“Manual da faxineira”, da escritora Lucia Berlin, é publicado no Brasil

 

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Conheci a escritora americana Lucia Berlin (1936-2004) lendo um artigo da revista literária The Paris Review  e me apaixonei pela escrita irônica, o modo de contar uma história sem frescuras e indo direto ao ponto. O conto “B.F. and Me” é delicioso; Berlin disserta sobre a profissão de telefonista e sobre as vozes humanas e suas personalidades. Fiquei louca para ler um livro dela, mas não havia nenhum traduzido para o português. Até agora. A Companhia das Letras irá lançar no próximo dia 13 o livro “Manual da Faxineira”, que reúne contos da escritora.

Lucia Berlin teve uma vida tumultuada e cheia de experiências que serviram de inspiração para sua obra. Aos 32 anos, já havia casado três vezes e vivido em vários lugares do mundo. Durante a infância e a adolescência, viveu no Chile e no México, onde casou e frequentou a universidade. Depois de ser abandonada pelo marido, casou novamente e mudou-se para Nova York. O último casamento foi com Buddy Berlin.  Exerceu várias profissões para sustentar os quatros filhos: professora, telefonista, faxineira e enfermeira. Nos últimos anos de vida, foi professora de escrita criativa na Universidade do Colorado.

“Manual da Faxineira” na lista dos melhores livros do New York Times

Suas experiências profissionais e os problemas com drogas e álcool foram a base de diversos contos. Ela começou a publicar textos esporádicos em algumas revistas literárias na década de 60, mas apenas nos anos 70 publicou um livro. Chamou a atenção de escritores como Lydia Davis e Saul Bellow, mas foi pouco reconhecida em vida, tanto pelo público como pela crítica.

A grande virada, infelizmente, veio depois da sua morte. Em 2015, os contos de Berlin foram reunidos no livro Manual da Faxineira, que foi indicado pelo The New York Times como um dos “10 melhores livro do ano”.

 

Poemas de Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Alberto Caeiro

O próprio Fernando Pessoa deixou-nos uma descrição de Alberto Caeiro:

“Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Caeiro era de estatura média e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era.Cara rapada todos – o Caeiro louro, sem cor, olhos azuis. Caeiro escrevia mal o português…”

Caeiro é o “mestre” dos heterônimos. Ele é um poeta que louva a natureza e a simplicidade, e que rejeita todo o misticismo e a filosofia.

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

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O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

“Alguma coisa urgentemente” – conto de João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll morreu na última quarta-feira, 29 de março, em Porto Alegre. Vencedor de cinco prêmios Jabuti, Noll escreveu 18 livros e teve algumas obras adaptadas para o cinema, como “Harmada” e “Hotel Atlântico”. De acordo com análise do escritor Ricardo Lísias, a obra do autor já previa as dificuldades que o Brasil teria para superar a estrutura autoritária da ditadura.

Essa análise social é vista no conto “Alguma coisa urgentemente“, de 1980.  A relação de um adolescente com o pai, preso político, mostra as dificuldades dos filhos de pais que lutaram contra a ditadura e a fragilidade dessas relações num ambiente autoritário.

O conto é um dos mais aclamados do escritor e da literatura brasileira e foi publicado no livro “O cego e a dançarina“, que ganhou o prêmio Jabuti. O filme também foi adaptado para o cinema pelo diretor Murilo Salles com o título “Nunca fomos tão felizes”.

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

O resto do conto pode ser lido no site Releituras.

Pena que a obra de João Gilberto Noll é tão pouco conhecida do público e que ele tenha morrido em um período tão conturbado da história do país.